PERFIL| Nas raízes do futuro: o solo vivo da pesquisa de Élida Barbosa

22 de outubro de 2025
Élida em uma atividade no campo

Élida em uma atividade no campo

No campus II da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), localizado no município de Lagoa Seca, entre corredores silenciosos e árvores frutíferas pouco notadas pelos estudantes apressados, um laboratório guarda mais do que livros técnicos ou experimentos científicos. Ali, a professora Élida Barbosa Corrêa, doutora em Proteção de Plantas pela Faculdade de Ciências Agronômicas (Unesp),  ensina outras formas de se relacionar com a terra — e, talvez, com o próprio tempo. Desde criança, ela já sabia que iria se enveredar por esse vasto mundo do campo. “Minhas férias eram no sítio dos meus avós, na horta, na produção de amoras, tirando os bichos da seda. Então, essa vontade foi crescendo em mim. E quando fui fazer vestibular, não hesitei e escolhi Agronomia”, diz a pesquisadora enfatizando que nunca se interessou pela agricultura convencional com uso intensivo de agrotóxicos e insumos químicos. Seus olhos e suas pesquisas se voltaram para vias alternativas que fugissem dessa realidade praticada nessa área, e a Agricultura Familiar estava no seu raio de atuação justamente por utilizar os processos naturais para a preservação ambiental e a geração de renda para milhões de famílias rurais.  Sua trajetória mistura ciência, afeto e resistência.

Professora titular no curso de Ciências Agrárias desde 2012, Élida Barbosa coordena o Grupo de Pesquisa em Agrobiodiversidade do Semiárido, , integrando a tríade  pesquisa, ensino e extensão, que visa a transformação da realidade das famílias agricultoras do semiárido paraibano, partilhando e aprofundando as pesquisas entre os  alunos de graduação e mestrado, como também de outras instituições a exemplo da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), do Campus I da UEPB e do IEC São Paulo. O Grupo surgiu a partir da observação e das demandas da realidade vivenciadas por estas famílias, e se integrou no Proext-PG/UEPB  em abril de 2025.  Sua atuação extrapola a lógica acadêmica tradicional. Ela é o tipo de cientista que desconfia da pressa e da produtividade convertida em números, acreditando que ciência convertida para ações sociais também são construídas numa parceria entre pesquisa e sociedade. 

Participando do 54º Congresso Brasileiro de Fitopatologia, realizado em Lavras, MG,

Participando do 54º Congresso Brasileiro de Fitopatologia, realizado em Lavras, MG

As pesquisas atuais se voltam para a revitalização da cultura da batata agroecológica,  utilizando práticas sustentáveis e em harmonia com o meio ambiente, sem o uso de produtos químicos sintéticos. Isso inclui a escolha de variedades adaptadas à região, manejo de solo para melhorar sua fertilidade e estrutura, controle de pragas e doenças de forma natural, e uso de sementes de boa qualidade.  Nos artigos que escreve, há rigor. Nos experimentos, há método. Mas no que faz, sobretudo, há escuta. Élida recusa a separação entre ensino, extensão e pesquisa. Por isso, seus projetos raramente ficam nos limites do campus. Vai ao campo, visita cooperativas, caminha entre hortas comunitárias. Seus dados têm cheiro de mato e cor de terra. As pesquisas não se restringem aos microscópios do seu laboratório. Vai além. Devolve para a sociedade os resultados e esperança de uma agroecologia mais sustentável.

Esse percurso de pesquisas e incentivos não ocorreu de forma linear. Élida nos fala que ficou um tempo na luta pela falta de incentivo de projetos que alavanquem as pesquisas nessa área, sobrevivendo via editais de Agências de fomento na qual restringia-se a bolsas para os alunos e não para os insumos. Mesmo assim, as pesquisas nunca pararam.  “Para mim, não tem lógica uma pesquisa que não seja aplicada, que não seja realizada para mudar a vida das pessoas”, destaca a pesquisadora. 

E esses resultados geram um impulsionamento para aprimorar a produção e as famílias envolvidas. Além dos instrumentos metodológicos, é na escuta que a mágica acontece. “É preciso escutar o que eles [os agricultores] têm a nos dizer”. Por isso sua ciência não cabe em gráficos e artigos científicos. Ela brota no tempo das chuvas, nas mãos de quem planta, na memória dos que carregam essa vivência em suas vidas. Porque, para Élida Barbosa, o futuro da agronomia não está apenas nas tecnologias  e experimentos,  mas na atenção que se dá àquilo que cresce devagar.

 


Acompanhe-nos nas nossas redes Sociais

Instagram / Youtube/ Spotify

 

Adriana Alves Rodrigues

Fotos: Élida Brabosa