PERFIL| Sérgio Lopes e a missão de cultivar conhecimento em solo paraibano

Prof. Dr. Sérgio Lopes, Coordenador do Levin e Quintal Produtivo
Entre o verde da ecologia e o pensamento inquieto da filosofia, Sérgio Lopes construiu uma trajetória que desafia fronteiras disciplinares. Professor e pesquisador da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), ele transita com naturalidade entre o rigor da ciência e a reflexão humanista, entre a aridez da caatinga e a fertilidade das ideias. “O que me marcou até aqui foi essa minha diversificação na busca do conhecimento”, diz, com a serenidade de quem vê na curiosidade um modo de existir.
A caminhada começou nos corredores da Universidade Federal de Uberlândia, na década de 1990, quando cursou Ciências Biológicas. Ali, descobriu o fascínio pela ecologia vegetal e pela pesquisa. “Mesmo na graduação, foi um grande estímulo participar de diversos laboratórios. Quando finalizei o curso, já tinha clareza de que queria seguir com o mestrado”, recorda. Vieram o doutorado, o pós-doutorado e, mais tarde, um novo começo: em 2019, ingressou no curso de Filosofia na UEPB, motivado pelo desejo de compreender a dimensão ética das relações entre seres humanos e natureza.
Na confluência entre o saber científico e a reflexão filosófica, Sérgio encontrou um campo fértil. “Dentro da filosofia eu trabalhei e ainda trabalho com ética ambiental. Unindo a filosofia, que é a parte da ética, e trazendo minha experiência da ecologia, chego à ética animal, à ética vegetal e aos novos tipos de bioética”, explica. Seu percurso recente inclui também uma imersão na psicologia, área que ele enxerga como uma extensão natural de suas inquietações. “Algumas pessoas podem pensar: o que ecologia e psicologia têm a ver? Hoje existe um ramo chamado ecopsicologia, que estuda as mudanças comportamentais para atitudes pró-ambientais. É sobre como eu me relaciono com a natureza.” 
No Laboratório de Ecologia Vegetal Integrativa (Levin), que coordena na UEPB, Sérgio reúne estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado em torno de uma missão comum: compreender a dinâmica das plantas e dos biomas do semiárido, especialmente a caatinga. “A ecologia vegetal estuda as relações das comunidades de plantas com as variáveis ambientais. Queremos entender como a caatinga vem sofrendo com o processo de desertificação — o aumento da temperatura, a diminuição das chuvas e o uso intensivo do solo.”
O olhar científico se amplia quando ele aborda o conhecimento popular sobre as plantas. A etnobotânica, incorporada às pesquisas do Levin – Laboratório de Ecologia Vegetal Integrativa – revela saberes tradicionais e práticas sustentáveis. “Buscamos entender como as comunidades tradicionais obtêm conhecimento sobre plantas medicinais, forrageiras, de manejo e uso sazonal. Esses saberes são fundamentais para a convivência com o semiárido.”
Sérgio fala da ciência com o mesmo entusiasmo de quem fala da vida. Para ele, fazer pesquisa é também devolver à sociedade aquilo que a universidade produz. “Não tem muita eficiência tentar entender a pesquisa apenas dentro dos muros da universidade. É preciso estender as atividades para o contexto regional e responder às demandas da população”, afirma.
Essa convicção se materializa nos projetos de extensão que coordena. O Ecoando Ciência leva divulgação científica a escolas e praças públicas, aproximando crianças e jovens do universo da pesquisa. Já o Quintal Produtivo cria um espaço-modelo de agroecologia que recebe escolas e agricultores, ao mesmo tempo em que acompanha a implantação de quintais sustentáveis em comunidades. “Projetos como o Quintal Produtivo são fundamentais porque fazem a ponte entre as pessoas diretamente afetadas pelas mudanças climáticas e a universidade. A ciência precisa ouvir e aprender com quem vive essas transformações no cotidiano.”

Sérgio Lopes e os alunos em uma aula de campo
No fundo, sua trajetória é um convite à reconciliação entre mundos que a academia muitas vezes separa: o natural e o humano, o racional e o sensível, o laboratório e o quintal. Em cada uma dessas esferas, Sérgio Lopes parece cultivar o mesmo princípio que orienta seu trabalho: o de que o conhecimento floresce melhor quando é plantado em solo compartilhado.
Como ele mesmo define, “entender a relação entre ensino, pesquisa e extensão é essencial para acelerar novos conhecimentos, novas metodologias, novas resoluções de problemas”. E talvez seja justamente isso o que o move — a busca por um modo de fazer ciência que, como a caatinga que tanto estuda, resiste, se reinventa e floresce mesmo sob o sol mais intenso.
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Adriana Alves Rodrigues
Fotos: Arquivo Pessoal/Sérgio Lopes
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