PERFIL| Da Caatinga aos Cordéis da Ciência: a Caminhada Inventiva de Jota Lima
Na zona da mata entre Paraíba e Pernambuco, onde o tempo parece andar com outro ritmo e a vida se mede tanto em desafios quanto em pequenas conquistas, cresceu Jota Lima. Filho mais velho de sete irmãos, cedo aprendeu a dividir responsabilidades, equilibrando o cuidado com a família e o desejo insaciável de aprender. Nascido entre os dois Estados, no distrito de Ibiranga-PE, cidades fronteiriças e interioranas, Jota aprendeu cedo a transformar desafios pessoais em oportunidades.
O contato com as dificuldades financeiras da família, somado à responsabilidade de cuidar dos irmãos, moldou um perfil resiliente e determinado, mas também sensível às questões sociais que permeiam seu trabalho acadêmico. Entre livros e cadernos, desenhos e rabiscos, desenvolveu um olhar atento para o mundo, percebendo que cada dificuldade carregava em si a possibilidade de transformação. Essa vivência no interior, marcada por limitações financeiras e oportunidades raras, foi o alicerce de sua trajetória: o desejo de superar obstáculos, de abrir caminhos para si e para aqueles ao seu redor, sempre guiado pela curiosidade e pela criatividade.
Ainda na graduação, Jota descobriu que o cordel podia ser um veículo de comunicação científica. A experiência de pesquisar poetas que abordavam temas de ciência despertou nele a vontade de produzir seus próprios textos, aproximando Física e literatura em um diálogo inovador. Em parceria com colegas, escreveu cordéis sobre ciência, combinando rigor acadêmico e criatividade literária, consolidando um método de ensino que alia didática, imaginação e engajamento cultural. Para ele, a literatura de cordel não é apenas forma artística, mas ferramenta pedagógica capaz de humanizar o ensino e abrir novas possibilidades de aprendizagem.
Ao longo de sua carreira, Jota vem explorando como projetos de extensão podem transformar a relação entre universidade e sociedade. Seu trabalho no Ciência na Mesa, na Cozinha e no Quintal evidencia o compromisso com uma ciência acessível, que extrapola os muros acadêmicos e se faz presente nas praças, cozinhas e quintais das cidades onde atua. Para ele, essa aproximação não apenas difunde conhecimento científico, mas valoriza a cultura local, instiga a criatividade e fortalece a noção de pertencimento à comunidade.
Durante a graduação em Física na UEPB, Jota Lima encontrou um território inesperado para essa combinação de disciplina científica e imaginação: a literatura de cordel. Fascinado pela capacidade do cordel de transmitir saberes de forma acessível, percebeu que poderia unir poesia e ciência em um diálogo vivo, capaz de traduzir conceitos complexos em versos que encantassem, educassem e aproximassem a população do conhecimento científico. Em parceria com colegas, começou a produzir cordéis científicos, mesclando ritmo, rima e rigor acadêmico, criando uma nova forma de ensino que ultrapassava as fronteiras da sala de aula e tocava diretamente a experiência das pessoas.
A trajetória acadêmica de Jota Lima é marcada pela busca de sentido para a ciência na vida real. A experiência como professor ainda na graduação, ministrando aulas em sua cidade natal, revelou-lhe que ensinar Física não poderia se resumir a fórmulas ou exercícios mecânicos. Era necessário provocar interesse, estimular a imaginação e criar oportunidades para que os alunos percebessem a ciência como parte de seu cotidiano. Esse insight tornou-se a base de sua pesquisa e de seu trabalho em extensão universitária, mostrando que ciência, arte e cultura popular podem caminhar juntas.
Nos projetos de extensão, como o Ciência na Mesa, na Cozinha e no Quintal, Jota Lima leva a Física para além das salas de aula, promovendo uma aprendizagem vivida, compartilhada e interdisciplinar. Cada cordel, cada oficina, cada diálogo com a comunidade é uma tentativa de humanizar o ensino, de valorizar a cultura local e de despertar a criatividade das pessoas. Ele acredita que aproximar ciência e sociedade é uma forma de fortalecer a cidadania, estimular a curiosidade e demonstrar que a universidade não existe isolada, mas como espaço de transformação social e cultural.
Doutorando em Ensino de Ciências e Matemática pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Educação Matemática da Universidade Estadual da Paraíba (PPGECEM-UEPB, a pesquisa de Jota Lima se concentra na interseção entre ensino de Ciências, literatura de cordel e projetos de extensão, investigando como essa combinação pode gerar aprendizagens significativas, engajamento social e inovação pedagógica. Para ele, o cordel é mais do que um gênero literário: é uma ferramenta de ensino, de conexão cultural e de valorização da imaginação humana. Cada verso é um convite à reflexão, à descoberta e à aproximação entre o conhecimento acadêmico e a experiência cotidiana.
Fazer ciência com compromisso social, para Jota Lima, significa ir além do laboratório e dos artigos acadêmicos. É dialogar com as pessoas em uma linguagem compreensível, mostrar que a ciência pode ser prática, acessível e inspiradora. É transformar a aprendizagem em experiência sensível, onde a Física se encontra com a literatura, onde a universidade se aproxima da comunidade, e onde cada projeto de extensão se torna um espaço de criatividade, pertencimento e impacto real.
Sua trajetória demonstra que os desafios do interior, a paixão pela arte e a dedicação à ciência podem se combinar para criar uma carreira única, marcada pela inovação pedagógica e pelo compromisso social. Jota Lima é exemplo de como a ciência pode ser humanizada, poética e profundamente conectada à vida das pessoas, provando que conhecimento, criatividade e sensibilidade são ingredientes fundamentais para transformar não apenas a sala de aula, mas toda a sociedade.
O pesquisador enxerga na extensão universitária um espaço de experimentação social e pedagógica, onde a ciência se encontra com a vida real das pessoas. Para Jota, a combinação entre pesquisa, ensino e arte cria uma ciência mais humana, inclusiva e engajada, capaz de provocar transformação cultural e intelectual. Seu trabalho reflete uma visão ampla do papel da universidade: formar cidadãos, cultivar a criatividade e tornar o aprendizado uma experiência viva, prazerosa e socialmente relevante.
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