Quintal Produtivo: o laboratório vivo da agroecologia no semiárido

15 de dezembro de 2025
Quintal Produtivo: o laboratório vivo da agroecologia no semiárido

Sementes da mudança: Entre canteiros, árvores frutíferas, abelhas sem ferrão e sementes crioulas, um pedaço do sertão floresce com um propósito  na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). O Quintal Produtivo da UEPB, coordenado pelo professor Sérgio Lopes, nasce como um projeto de extensão que recria, dentro do campus universitário, a lógica dos quintais agroecológicos presentes no sertão paraibano e em outras regiões do semiárido, e está vinculado ao Laboratório de Ecologia Vegetal Integrativa LEVIN – UEPB, também coordenado por Sérgio. 

A ideia surgiu a partir do ingresso do docente no Programa de Pós-Graduação em Ciências Agrárias, em articulação com a Embrapa e com estudantes da graduação e da pós-graduação. A proposta foi submetida e aprovada no último edital da Proext, com o objetivo de fortalecer a agroecologia tanto no espaço universitário quanto em diálogo direto com a sociedade, especialmente escolas públicas e agricultores familiares.  “O quintal foi pensado como uma vitrine de sistemas e tecnologias agroecológicas que já fazem parte do cotidiano de muitas famílias do interior da Paraíba”, explica o professor Sérgio Lopes. “A universidade passa a ser um espaço de demonstração, troca e valorização dessas práticas.”

O intuito ao qual o professor se refere é claro e ambicioso: “criar um quintal dentro da UEPB como se fosse uma vitrine de sistemas e tecnologias agroecológicas que pudessem representar algo que é visto e mantido em residências da zona rural, no interior da Paraíba, no semiárido, no sertão”. Nesse espaço convivem microsistemas integrados: um Sistema Agroflorestal (SAF), canteiros de hortaliças, um banco de sementes crioulas (as “sementes da paixão”), um meliponário para criação de abelhas nativas sem ferrão, pomares, área de compostagem, uma mandala de plantas medicinais e condimentos, além de um anfiteatro ao ar livre para receber visitas, capacitações e oficinas.  

O projeto não se isola nos muros da universidade. “Futuramente, a ideia é abrir uma vez por semana, para receber pessoas que se interessam pela temática”, planeja o coordenador. Para facilitar o agendamento, estão em desenvolvimento um site e um aplicativo. O foco social é evidente, visando especialmente escolas públicas e agricultores familiares.

A proposta prevê a abertura semanal do quintal para visitação, mediante agendamento. Um site e um aplicativo estão em fase de desenvolvimento para facilitar a comunicação com a sociedade e ampliar o alcance das ações. “A ideia é que pessoas interessadas na temática possam conhecer, perguntar, aprender e levar essas experiências para seus próprios quintais”, afirma o coordenador.

Além do caráter formativo, o projeto dialoga diretamente com os debates globais sobre mudanças climáticas e sustentabilidade. Sistemas agroecológicos e quintais produtivos têm papel relevante na mitigação dos impactos da crise climática, sobretudo por ampliarem a cobertura vegetal, conservarem a umidade do solo e promoverem a biodiversidade. “São sistemas que ajudam a enfrentar os efeitos das mudanças climáticas de forma concreta, especialmente no semiárido”, destaca Sérgio Lopes.

O Quintal Produtivo também evidencia a dimensão social da agroecologia. Tradicionalmente gerenciados por mulheres, os quintais fortalecem a segurança alimentar, reduzem gastos com alimentação e criam possibilidades de complementação de renda, seja por meio da troca de excedentes, da venda em feiras agroecológicas ou da formação de pequenas cadeias produtivas. “Existe um protagonismo feminino muito forte nesses espaços, ligado ao manejo das plantas medicinais, à produção de alimentos e à transmissão de conhecimentos”, ressalta o professor.

Outro eixo central do projeto é a valorização do conhecimento tradicional. O uso de sementes crioulas, conhecidas como sementes da paixão, as práticas de manejo do solo, a produção de biofertilizantes e o uso de plantas medicinais integram um conjunto de saberes transmitidos entre gerações. “Quando falamos em quintal produtivo, falamos de herança cultural. São conhecimentos dos avós, dos pais, que continuam vivos e precisam ser reconhecidos também pela academia”, afirma Sérgio Lopes. Em meio à crise climática, o projeto aponta caminhos possíveis para uma relação mais equilibrada entre sociedade, natureza e produção de alimentos, com raízes fincadas no território e no conhecimento local.

Com a recente COP30 reforçando a urgência climática, o Quintal Produtivo se mostra como uma resposta prática e local a um desafio global. “O tema agroecologia está em pauta, não somente em relação ao Brasil e principalmente ao semiárido, mas é uma pauta internacional”, afirma o professor Sérgio. “É sabido que os sistemas agroecológicos e principalmente os quintais produtivos são extremamente importantes para a mitigação e a transição climática”. 

Vitrine de Possibilidades e Guardiã de Saberes

O Quintal da UEPB serve também como um centro de inspiração e capacitação. “O quintal produtivo da UEPB tenta trazer um pouco da realidade e de possibilidades que podem ser implementadas”, diz Sérgio Lopes. Ele sugere que quintais já existentes podem ser incrementados com tecnologias como reuso de água, compostagem ou criação de abelhas nativas. “Veja que ao mesmo tempo que você cria abelhas nativas, você promove outros serviços ecossistêmicos, que é o serviço da polinização natural”.

Por fim, o projeto carrega a missão de preservar e valorizar um patrimônio imaterial. “A ideia do quintal produtivo traz um aspecto extremamente importante que é a valorização do conhecimento tradicional”, ressalta o professor. “Quando você pensa em quintal produtivo, você traz uma bagagem, uma herança cultural transmitida por gerações… conhecimento sobre aspectos que a gente chama de uma farmácia viva”. Esse saber, acumulado ao longo de gerações no manejo do solo, no uso de biofertilizantes e no controle natural de pragas, encontra no projeto um canal de diálogo com o conhecimento acadêmico.

“Todo esse conhecimento que é cultivado, acumulado ao longo de gerações, ele é mantido também dentro do quintal produtivo”, conclui Sérgio Lopes. “E esse conhecimento, na medida do possível, a ideia do projeto é que ele seja mantido, seja trocado enquanto conhecimento tradicional, conhecimento sistematizado, e seja cada vez mais valorizado”. Assim, entre mudas, canteiros e o zumbido das abelhas nativas, o Quintal Produtivo da UEPB cultiva muito mais que alimentos: cultiva futuro, respeito e uma nova forma de enxergar a relação entre o homem e a terra árida, porém generosa, do sertão.

Para acompanhar os desdobramentos desse projeto: @quintalprodutivo.uepb


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Adriana Alves Rodrigues

Fotos: Sérgio Lopes – Quintal Produtivo